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  • Franco Catalano

Pátina do tempo

Em seu significado mais puro, há muito perdido, pátina representava exclusivamente o processo de oxidação pelo qual o cobre passa quando exposto a intempéries.

O metal, alaranjado em seu estado natural, deu nome a duas eras: a do Cobre e a do Bronze (liga resultante da mistura com estanho) e é conhecido desde a pré-história. Valioso desde aquelas épocas, segue sendo amplamente utilizado nos dias atuais devido a suas características de ductilidade, maleabilidade e condução de eletricidade.


Na arquitetura, telhas de cobre são empregadas na cobertura de edifícios desde pelo menos a Roma Antiga e perpetuaram-se como ótimos materiais construtivos ao longo da Idade Média e Renascimento, pois, diferentemente do ferro, não enferrujam e nem apodrecem. Hoje em alta, os painéis de cobre revestem fachadas, coberturas e elementos decorativos de altíssimo valor agregado.

A pátina, um processo lento e poético que leva décadas para ocorrer naturalmente sobre as superfícies acobreadas, transforma aos poucos a cor natural em um esverdeado intenso, mostrando que o tempo, bem como em certos vinhos, só lhe faz bem. Aos curiosos sobre a mudança do aspecto do material, sugiro que pesquisem sobre a evolução da Estátua da Liberdade (a original nova-iorquina, não as aberrações reproduzidas em plástico pelo dono da Havan).


Tomando o termo emprestado do processo químico, pátina tornou-se sinônimo de um processo artesanal aplicado sobretudo a móveis de madeira, que consiste em uma série de pinturas, lixamentos e abrasões que simulam um aspecto envelhecido.

Muitos móveis, reparem, trazem inclusive o tom esverdeado do cobre envelhecido, mantendo alguma correlação com a origem do termo. Hoje, o sentido de pátina é mais amplo, abrangente. Diz-se que uma peça de couro, com o passar dos anos e com os sinais de uso, é patinada. Sabe aquela carteira ou bolsa que escureceu justamente onde nossa mão a toca? Que pegou o formato de nossos cartões e moedas? São sinais da “pátina” do tempo.


Indo além, podemos aplicar a expressão à filosofia que escolhemos adotar em nossa vida. Em qualquer aspecto dela. O tempo, uma das poucas certezas que temos neste mundo, passa e deixa sinais. Nossa pele torna-se patinada pelo sol que tomamos, pelas cicatrizes que colecionamos e pelas rugas com as quais nosso organismo nos presenteia.


Podemos maquiar, repuxar e plastificar, mas a pátina volta. O mesmo acontece com nossas casas, objetos e memórias. O tempo vai desgastando-os aos poucos, não percebemos de imediato, mas um dia nos damos conta que o resultado que está diante de nós, naquele momento presente, já não é o mesmo que conhecemos num passado distante. Há beleza neste processo, na história de cada mancha, de cada vestígio, de cada lembrança que se torna mais vaga. Muitos se angustiam com o tic-tac do relógio, almejando uma perfeição e imutabilidade inatingíveis, negando-se a aceitar a pátina do tempo. Mas ela vem, queiramos ou não.

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